Durante o II Congresso Nacional do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), acontecerá a Mostra de Produção e Ciência das Camponesas, um espaço de valorização e visibilização do trabalho das mulheres do campo, das águas, das florestas e das periferias.
A Mostra será um momento de fortalecimento do projeto de agricultura camponesa agroecológica feminista, que vem sendo construído ao longo dos 42 anos de luta e existência do MMC. Camponesas organizadas nos 17 estados onde o movimento está presente levarão para Brasília a diversidade de tudo o que produzem em seus quintais produtivos, hortas, roças, agroflorestas e áreas de uso coletivo.
Esse espaço reafirma a contribuição das mulheres na produção de alimentos que garantem a soberania alimentar das famílias e dos consumidores, além de fortalecer a autonomia econômica, a geração de renda e a valorização social das camponesas. Como parte da programação, haverá bancas com alimentos, artesanatos e produtos diversos, fruto da sabedoria acumulada nas comunidades.
A comercialização é parte fundamental desse processo. Quando as mulheres conquistam sua própria renda, elas encontram caminhos para romper ciclos de violência e fortalecer sua independência. As políticas públicas e as formações promovidas pelo MMC têm sido decisivas nessa trajetória, permitindo acesso a direitos, documentação e meios concretos de garantir a autonomia feminina. No Congresso, a Feira de Amostra e Comercialização se tornará símbolo dessa caminhada, ao possibilitar a exposição das produções, a troca de experiências e sementes entre estados, e a reafirmação da identidade camponesa.
A força das sementes crioulas
Toda essa produção é guiada pelos princípios da agroecologia e pelo uso das sementes crioulas, preservando a biodiversidade e os bens naturais — como solo e água — nos diferentes biomas do país. Essas sementes, passadas de geração em geração, resistiram às tentativas do agronegócio de desqualificá-las e substituí-las. Desde os anos 1970, com a chamada “revolução verde”, elas vêm sendo alvo de ameaças, mas seguem firmes como base da produção de alimentos saudáveis.
O MMC sempre defendeu, resgatou e multiplicou as sementes crioulas. As camponesas têm a missão de plantar, colher, transformar em pratos diversos e nutritivos, cuidando da saúde das crianças, idosos e famílias, e ainda garantindo excedentes para comercialização. Para dar continuidade a esse processo, foi criada a Campanha Nacional Sementes de Resistência: Camponesas semeando esperança, tecendo transformação.
Durante o Congresso, haverá um espaço especial para exposição da diversidade de sementes — de alimentos, flores, árvores frutíferas, adubação verde e plantas medicinais — acompanhado de uma grande partilha, para que sejam multiplicadas em todo o país, fazendo florescer uma grande primavera camponesa, em uma terra digna, com direitos, igualdade e justiça.
A ciência das camponesas
Além da produção de alimentos, artesanatos, sementes e da recuperação de áreas degradadas, o trabalho das mulheres envolve saberes, práticas, experimentações e observações que compõem o que chamamos de Ciência das Camponesas.
Esse conhecimento constitui um sistema próprio, diferente da ciência hegemônica baseada apenas no método científico ocidental. Enquanto a ciência oficial se traduz em fórmulas e publicações, a ciência camponesa se inscreve na paisagem, nos gestos, na paciência e no profundo afeto pelo território. É um saber prático, corporal e transmitido de geração em geração, de mulher para mulher, estruturado no cuidado com o solo, as sementes, as plantas e as pessoas.
Mais do que um legado cultural, essa ciência se apresenta como alternativa vital diante da crise ecológica e das mudanças climáticas. Reconhecê-la e promover seu diálogo com o conhecimento acadêmico é essencial para a construção de agroecossistemas resilientes e socialmente justos. Honrar essa ciência é valorizar o trabalho intelectual, a criatividade e as vivências das mulheres camponesas.
Rumo a um Brasil popular e soberano
A Mostra de Produção e Ciência das Camponesas será, portanto, a expressão do potencial produtivo e científico das mulheres em seus territórios. Mostrará como esse modo de viver e produzir contribui para um mundo mais justo, digno e livre de violências.
Para que esse projeto avance e se consolide em todo o país, é fundamental a existência de políticas públicas que fortaleçam as experiências e estratégias de resistência que o MMC vem construindo. O II Congresso Nacional será, assim, não apenas uma celebração da luta, mas também um marco na construção de um projeto popular e soberano para o Brasil.
*Texto: Ana Cláudia Rauber
Colaboração: Rainielly Barbosa Soares, Carmem Munarini e Maria Lucivanda Rodrigues Silva
Organização: Vanusa Ferreira Bandeira Carneiro.