Mesa temática destaca a necessidade de unir forças contra o patriarcado, o racismo, o capitalismo e a destruição ambiental, reafirmando que a solidariedade entre os povos é o caminho para a libertação das mulheres
Por Vanessa Lazzaretti — Brasília (DF)
Durante a manhã da terça-feira (14/10), no II Congresso Nacional do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC Brasil), a mesa de debate intitulada “Análise de conjuntura nacional e internacional a partir da perspectiva das mulheres do campo, das águas e das florestas: identificando os desafios e as estratégias de resistência a partir do Feminismo Camponês Popular” reuniu representantes de movimentos camponeses, urbanos, indígenas e quilombolas para refletir sobre os desafios políticos e sociais que atravessam a vida das mulheres camponesas, trabalhadoras, negras e indígenas. Além das companheiras que participaram presencialmente da mesa, enviaram suas saudações Morgan Ody, da Coordenação Geral da Via Campesina e Francisca Rodrigues, da CONAMURI (Chile). Também fizeram uso da fala os deputados federais Dionilso Marcon (PT/RS) e Fernando Mineiro (PT/RN), a representante da CONAB, Maria Casé.
O encontro, mediado pelas dirigentes do MMC, Sandra Rodrigues e Michela Calaça, reafirmou que a força do Feminismo Camponês Popular está na solidariedade entre os movimentos e na construção de alianças que enfrentam, de forma coletiva, os sistemas de opressão que sustentam a desigualdade e a exploração.
As falas das participantes evidenciaram que as desigualdades vividas pelas mulheres do campo, das águas, das florestas e pelas mulheres trabalhadoras das periferias urbanas não podem ser compreendidas de forma isolada. Elas são resultado da articulação entre o patriarcado, o racismo e o capitalismo, sistemas de dominação que estruturam a sociedade e moldam as relações econômicas, políticas e culturais. O Feminismo Camponês Popular se constrói justamente na resistência a esses sistemas, afirmando um projeto de transformação social enraizado nos territórios e nas experiências concretas das mulheres.
Michela Calaça destacou que a solidariedade entre camponesas, trabalhadoras, negras e indígenas não é gesto simbólico, é estratégia política para defender nossos corpos, nossa comida e nossos bens comuns. “Quando articulamos agroecologia, economia solidária e defesa dos territórios, mostramos que há alternativas ao lucro que nos explora e à violência que nos silencia. Seguir tecendo alianças é fundamental, porque a libertação das mulheres é inseparável da libertação dos povos e da natureza que cuidamos há gerações.”
Adda Vytoria Caetano, representante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAC), reforçou a necessidade de compreender que a luta das mulheres camponesas também é uma luta antirracista. “Quando falamos de terra, falamos também de memória e de reparação. O racismo é uma estrutura que atravessa nossos corpos e territórios, determinando quem tem acesso à terra, à comida e à dignidade. O Feminismo Camponês Popular se torna mais potente quando reconhece que as mulheres negras e quilombolas estão na linha de frente dessa resistência, porque somos as primeiras a sentir os efeitos da exclusão e as últimas a sermos ouvidas.”
Ao denunciarem as múltiplas violências que enfrentam, as mulheres camponesas também apontam caminhos de emancipação: o fortalecimento da agroecologia, da soberania alimentar, da economia solidária e da educação popular como práticas que garantem autonomia, dignidade e vida digna no campo e na cidade.
Crise do capitalismo e aumento da violência
A análise de contexto apresentada pelas debatedoras ressaltou que a crise estrutural do capitalismo se manifesta em diferentes dimensões, como econômica, política, ambiental e social, e que seus efeitos recaem de forma mais dura sobre as mulheres. O avanço da precarização do trabalho, a perda de direitos e o aumento das desigualdades aprofundam a violência social e, principalmente, a violência contra as mulheres.
Guacira Oliveira, do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (CFEMEA), destacou a urgência de compreender a conjuntura política atual como parte de uma ofensiva conservadora e neoliberal que busca desestruturar direitos historicamente conquistados pelas mulheres e pelos movimentos sociais. “Vivemos um momento em que a crise do capitalismo se expressa de forma brutal nas nossas vidas. O desemprego, a precarização do trabalho, a mercantilização dos serviços públicos e o enfraquecimento das políticas sociais recaem, em primeiro lugar, sobre as mulheres”, destacou, complementando que, nos momentos de crise, é fundamental reforçar as redes de solidariedade e fortalecer as organizações populares, para que a resposta à violência e à exploração venha da unidade e da ação coletiva. “Precisamos tecer fios de solidariedade entre nós e construir uma estratégia compartilhada para barrar os retrocessos impostos, em nível político, pelo Congresso Nacional. Só assim conseguiremos criar um cenário político para impedir que esses que destroem a vida tomem o poder novamente”, reforçou.
Mileika de la Rosa Cabrera, da CONAMUCA (República Dominicana), ressaltou que a ofensiva conservadora e neoliberal não conhece fronteiras: agrava a fome, a carestia e a precarização do trabalho rural, empurra mulheres para a informalidade e tensiona os territórios com violência política e criminalização das lutas. Segundo ela, a luta contra a mercantilização da vida exige respostas transnacionais, tecidas na solidariedade camponesa e feminista. Nesse sentido, Mileika conectou a conjuntura atual à campanha permanente “Basta de Violência Contra as Mulheres”, lançada em 2008 pela Via Campesina, como plataforma comum para unificar denúncias, visibilizar resistências e organizar ações concretas de proteção e de cuidado entre movimentos.
Emergência ambiental e defesa dos territórios
Outro ponto de destaque da mesa foi a discussão sobre a chamada “crise climática”, compreendida pelas participantes como muito mais do que uma crise do clima. As camponesas afirmaram que o sistema capitalista vem há séculos destruindo o meio ambiente e explorando os recursos naturais de maneira predatória, tratando a natureza como mercadoria e expulsando os povos tradicionais de seus territórios.
Michela Calaça destacou que a crise ambiental é também uma crise de modelo econômico e civilizatório, e não apenas uma questão do clima. “Nós, mulheres camponesas, sempre denunciamos que o modelo de produção capitalista se sustenta em cima da destruição dos recursos naturais e dos nossos territórios, submetendo nossos corpos e modos de vida à lógica do lucro. É o avanço do agronegócio com monocultivos, agrotóxicos e a financeirização da natureza que expulsa povos do campo, das águas e das florestas e agrava o racismo ambiental. Por isso dizemos: a saída não virá de falsas soluções de mercado, mas da transição agroecológica com soberania alimentar, da defesa do bem comum e do protagonismo das mulheres na gestão dos bens da vida”.
As mulheres questionaram as soluções impostas pelos grandes poderes econômicos, que em nome da “transição verde” ou da “sustentabilidade” continuam reproduzindo práticas de expropriação e destruição. “Como resolver uma crise ambiental tirando dos territórios os povos que sempre os preservaram?”, provocaram as debatedoras, lembrando que a luta ambiental é também uma luta política e feminista.
Riredi Brás da Conceição, mulher indígena da aldeia Geru Tacunã Pataxó (MG), trouxe a força da palavra ancestral. “Nós mulheres indígenas somos escola. Mostramos ao mundo que ninguém melhor que nós para respeitar, amar, cuidar e proteger a terra. Muito mais do que apenas extrair, nós também precisamos ser alimento para ela”. Nesse horizonte é preciso disputar um modelo de desenvolvimento que tenha como centro a agroecologia, economia solidária, autogestão, cuidado comunitário e defesa dos corpos-territórios. “Se a crise é produzida por um modelo que mercantiliza a vida, nossa resposta é política e coletiva: fazer valer o conhecimento das mulheres e povos tradicionais, exigir políticas públicas que garantam terra, água, saúde e educação, e enfrentar as violências com unidade e mobilização”, destacou.
Feminismo Camponês Popular como prática de solidariedade e horizonte de transformação
O debate concluiu reafirmando o Feminismo Camponês Popular como proposta política e ética “semeada nas bases” do MMC e da Via Campesina, construída a partir das experiências de vida e das práticas coletivas das mulheres do campo, das águas e das florestas. Em contraposição à lógica do lucro e da mercantilização da vida, as intervenções destacaram o cuidado, o bem viver e a solidariedade como fundamentos de uma nova sociabilidade.
Para Adriana Mezadri, da Coordenação Nacional do MMC e da Articulação de Mulheres da CLOC Via Campesina (Coordenadora Latinoamericana de Organizações do Campo), esse feminismo foi sendo tecido nas comunidades, nas roças, nas cozinhas coletivas, nas formações e nas lutas, desde que o MMC assumiu publicamente o feminismo e, junto à Via Campesina, o colocou como ferramenta política para garantir terra, água, soberania alimentar e dignidade. Segundo ela, trata-se de um feminismo ancorado no trabalho e na vida das mulheres, que organiza redes de solidariedade para enfrentar violência, racismo, patriarcado, a LGBTFobia e a exploração. “Quando dizemos que o cuidado é um ato político, afirmamos um projeto de transformação que brota da prática cotidiana e se projeta como horizonte de bem viver”, resumiu.
Adriana também reforçou a importância da unidade entre movimentos e sujeitos políticos diversos. “Unir camponesas, trabalhadoras urbanas, mulheres negras e indígenas é a condição para avançar. É nessa aliança que transformamos dor em organização e cuidado em poder popular. Juntas, fazemos do feminismo um projeto de mundo.” A mesa encerrou com um chamado à continuidade das alianças entre movimentos populares, feministas, sindicais, indígenas e quilombolas para enfrentar os retrocessos e fortalecer a luta por um país soberano, justo e igualitário.
Movimento de Mulheres Camponesas realiza II Congresso Nacional
Por Ceiça Guilherme — Brasília (DF)
Com aproximadamente 2 mil mulheres participando, o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC Brasil), abriu no dia 13 de outubro de 2025, as atividades do II Congresso Nacional do movimento, que aconteceu em Brasília/DF, no Parque de Exposições da Granja do Torto.
Com o tema “Existimos Porque Lutamos”, o congresso recebeu mulheres de 19 estados brasileiros com uma intensa programação que seguiu até o dia 15 de outubro.
Em sua fala, a Coordenadora Nacional do MMC, Mirele Diovana Milhomem destacou a importância histórica do evento:
“Celebramos esse momento de abertura do nosso II Congresso Nacional bebendo no leito histórico, escrito por mãos calejadas, mas cheias de ternura e coragem. Somos a trincheira que brota vida, mesmo onde tentam semear o silêncio e o apagamento de nossas vozes, corpos e territórios. Somos herdeiras de Loivas, Ninas e Antônias que fizeram surgir da unidade por bandeiras o Movimento de Mulheres Camponesas”.
A solenidade de abertura contou com a presença de representantes de diversas organizações, movimentos sociais, ministros, autoridades políticas, a Caixa Econômica Federal, patrocinadora do congresso, representada pela Superintendente Nacional de Habitação em Interesse Social, Noemi Lemes, além de representantes de diversas entidades governamentais.
Entre os convidados a compor a mesa de abertura, além de dirigentes nacionais do Movimento, estiveram presentes a ministra Márcia Lopes, do Ministério das Mulheres; Macaé Evaristo, Ministra dos Direitos Humanos; Ministra substituta Fernanda Machiaveli, do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar; Kelly Cristine Mafort, Secretária-Executiva da Secretaria-Geral da Presidência da República, entre outras.

A Ministra das Mulheres, Márcia Lopes, participa da abertura do II Congresso Nacional do MMC em Brasília/DF
Em sua fala, a ministra Márcia Lopes enalteceu o movimento e falou da importância das mulheres camponesas no debate de um sistema que o Brasil pretende construir.
“Vocês são mulheres incríveis, mulheres que produzem, mulheres que superam todos os limites de dificuldades que a gente sabe que são grandes. Esse país sempre foi dos ruralistas, dos latifundiários, e foi muito dura a luta de vocês. A luta por reforma agrária, a luta por acesso a terra”.
Ainda durante a abertura foi lançado o HINO DO MMC BRASIL, um dos momentos mais emocionantes da abertura do congresso. O hino traz a composição da coordenação nacional do movimento, música Regina Cardoso, nas vozes de Regina Cardoso e Sirlei Gaspareto. Confira abaixo:
Além do hino, foi lançado o I Congresso Nacional da Infância Camponesa, que ocorreu em paralelo às atividades do Congresso Nacional do MMC.

Lançamento do Hino do Movimento de Mulheres Camponesas durante o II Congresso Nacional, em Brasília/DF
A programação continuou nos dias 14 e 15 com rodas de diálogos, debates, encerrando com o ato político de doação de alimentos ao Coletivo Mulheres do Sol, na Esplanada dos Ministérios.