Movimentos e organizações populares debatem desafios políticos-organizativos do Campo Unitário - MMC - Movimento de Mulheres Camponesas

Notícia

Movimentos e organizações populares debatem desafios políticos-organizativos do Campo Unitário

Trabalho de base, formação política, comunicação e construção da unidade estão entre as estratégias apontadas para fortalecer a organização dos povos do campo, das florestas e das águas

 

Vanessa Lazzaretti

04 de setembro de 2026

 

A mobilização continua sendo fundamental, mas precisamos olhar para as novas formas de participação e organização da sociedade. Não podemos abandonar aquilo que construímos historicamente, mas também não podemos achar que só as formas tradicionais vão dar conta dos desafios que temos hoje.” A reflexão de Vânnia Oríbomim, da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG), sintetiza uma das questões colocadas no centro do Encontro do Campo Unitário: como fortalecer a capacidade de organização e mobilização dos povos do campo, das florestas e das águas diante das transformações políticas, econômicas e sociais em curso no Brasil.

 

Os desafios políticos-organizativos do Campo Unitário foram um dos eixos debatidos durante o encontro, que reúne em Salvador (BA) mais de 60 organizações populares para discutir a conjuntura e construir estratégias comuns para alimentar e defender o Brasil. Para Vânnia, pensar a organização popular hoje exige compreender uma realidade profundamente diferente daquela em que muitos dos movimentos se constituíram. As mudanças nas relações de trabalho e nas formas de sociabilidade, a digitalização da vida, o avanço do capital sobre os territórios e a velocidade da circulação de informações impõem novos desafios para quem busca organizar politicamente as comunidades.

 

O desafio, nesse sentido, é fortalecer a mobilização popular e as formas históricas de organização, ao mesmo tempo em que se incorporam novas estratégias capazes de responder às transformações da sociedade e às mudanças nas formas de participação política. “A sociedade mudou, as relações mudaram e as formas como as pessoas participam também mudaram. O desafio é conseguir dialogar com essa realidade sem perder a organização coletiva e a capacidade de mobilização”, aponta a dirigente.

 

 

Construir unidade sem apagar diferenças

 

Esse desafio ganha uma dimensão ainda maior quando se considera a diversidade que constitui o próprio Campo Unitário. Agricultores e agricultoras familiares, trabalhadores sem terra, povos indígenas, comunidades quilombolas, pescadores artesanais, extrativistas, atingidos por barragens e pela mineração, mulheres e juventudes integram organizações com histórias, identidades, formas de atuação e reivindicações próprias.

 

A unidade política, portanto, não nasce da tentativa de eliminar essas diferenças. “Construir unidade não significa que todas as organizações tenham que ser iguais ou abrir mão das suas identidades. Nós precisamos reconhecer essa diversidade e, ao mesmo tempo, identificar aquilo que nos une e quais são as pautas estratégicas que precisamos enfrentar juntos”, explica Vânnia.

 

É nesse terreno comum que aparecem questões históricas, como o acesso à terra, a reforma agrária e o enfrentamento à concentração fundiária, mas também disputas que ganharam ainda mais centralidade nos últimos anos, como a defesa dos territórios e das águas, a soberania alimentar, a agroecologia, a justiça climática e a garantia de políticas públicas para quem produz e vive no campo.

 

A construção do Campo Unitário parte justamente dessa diversidade e do esforço de articulá-la em torno de pautas comuns, fortalecendo a capacidade de ação conjunta entre os diferentes sujeitos e organizações. Isso significa construir uma agenda capaz de articular diferentes sujeitos em torno de objetivos comuns sem subordinar suas reivindicações específicas. Uma articulação na qual a defesa da agricultura familiar possa caminhar ao lado da luta dos povos indígenas por seus territórios, da resistência quilombola, da defesa das águas, da luta das mulheres e das demandas das juventudes rurais.

 

 

Trabalho de base para reconstruir vínculos

 

Se a unidade precisa ser construída entre organizações diversas, ela também depende da capacidade de cada movimento de permanecer conectado às comunidades que representa. Por isso, uma das questões centrais apontadas por Vânnia é a retomada e o fortalecimento do trabalho de base. E, para ela, trabalho de base não pode ser entendido apenas como levar uma orientação ou convocar as pessoas para uma mobilização. “Trabalho de base é estar no território, é escutar, dialogar, acompanhar as famílias, entender os problemas que estão sendo vividos ali. É construir vínculo, identidade e pertencimento. Não é simplesmente chegar com uma informação pronta para as pessoas”, afirma.

 

Esse processo também permite transformar experiências aparentemente individuais em questões coletivas. O problema enfrentado por uma família para produzir, acessar crédito ou permanecer na terra; a dificuldade de uma jovem para construir autonomia econômica no campo; a pressão exercida pela mineração sobre determinada comunidade ou a falta de acesso à água não são fenômenos isolados. Quando esses problemas são compartilhados, discutidos e interpretados coletivamente, também podem se transformar em pauta política e ação organizada.

 

A dirigente destaca que é justamente nessa capacidade de construir vínculos que reside parte da força histórica dos movimentos populares. Ao mesmo tempo, reconstruí-la exige compreender que os territórios também mudaram. A expansão do agronegócio, a financeirização da agricultura, a mineração, as novas tecnologias e as mudanças no mundo do trabalho incidem diretamente sobre a vida das comunidades e sobre suas possibilidades de organização.

 

 

Formação política para compreender um mundo em transformação

 

Diante dessa realidade, Vânnia defende que o trabalho de base esteja articulado a processos permanentes de formação política. Não se trata apenas de formar dirigentes para ocupar estruturas das organizações, mas de construir capacidade coletiva para interpretar uma conjuntura que se tornou cada vez mais complexa. Debates sobre crise climática, financeirização, mineração, transição energética, geopolítica, novas tecnologias, desigualdades e transformações nas relações de trabalho precisam, segundo ela, chegar às bases e dialogar com a realidade concreta dos territórios.

 

Nós precisamos formar novas lideranças e dar condições para que elas entendam o que está acontecendo no mundo e consigam relacionar isso com aquilo que as pessoas estão vivendo nas suas comunidades”, defende. Essa formação também é fundamental para ampliar a participação e renovar as próprias organizações. Isso significa criar espaços para novas lideranças, novas experiências e novas formas de atuação política.

 

 

Comunicação também é organização

 

Nesse cenário, a comunicação deixa de ser apenas uma ferramenta de divulgação das atividades dos movimentos e passa a ocupar uma dimensão estratégica da organização política. A velocidade com que a desinformação circula, especialmente pelas redes sociais e aplicativos de mensagens, alterou profundamente a disputa política nos territórios. “Hoje uma informação falsa chega muito rápido às pessoas. Nós precisamos ter capacidade de responder, de disputar essa informação e de fazer com que as nossas lideranças também se apropriem das ferramentas de comunicação”, destaca Vânnia.

 

Isso significa ampliar a capacidade das próprias lideranças e comunidades de produzir e circular informações, contar suas experiências e disputar interpretações sobre aquilo que acontece nos territórios. Também significa construir uma narrativa que permita mostrar para além do próprio campo por que essas lutas dizem respeito ao conjunto da sociedade.

 

A disputa pela terra, por exemplo, também é uma disputa sobre quem produz os alimentos. A defesa das águas e das florestas está ligada à capacidade de enfrentar a crise climática. E a permanência da agricultura familiar nos territórios interfere diretamente na produção de alimentos saudáveis e na soberania alimentar do país. Assim, comunicar essas lutas significa também disputar qual projeto de desenvolvimento deve orientar o futuro do Brasil.

 

 

Juventude e continuidade da luta

 

De acordo com a dirigente, a capacidade de renovar a organização popular passa ainda por outro desafio: criar condições para que as juventudes permaneçam nos territórios e participem das decisões sobre seu futuro. A sucessão rural não depende apenas da vontade dos jovens de permanecer no campo. Depende da existência de condições materiais para construir uma vida com autonomia, renda e perspectivas.

 

Nesse sentido, Vânnia aponta a importância de iniciativas como cooperativas, associações e redes de produção e comercialização, que possam ampliar as possibilidades de autonomia econômica das novas gerações. Mas a permanência também depende de participação política. Incorporar a juventude às organizações significa não apenas convidá-la para atividades, mas reconhecer novas linguagens, formas de participação e maneiras de compreender a realidade.

 

Em um cenário de profundas transformações, esse talvez seja um dos pontos centrais do debate político-organizativo colocado aos movimentos: preservar a memória acumulada pelas lutas populares sem transformar essa história em uma estrutura incapaz de dialogar com o presente.

 

Para Vânnia, a resposta passa justamente pela combinação entre trabalho de base, formação política, comunicação, mobilização e articulação entre as organizações. Fortalecer o Campo Unitário, nessa perspectiva, passa pela articulação entre os movimentos, pela construção de capacidade política coletiva nos territórios e pela transformação de pautas compartilhadas em força social organizada para disputar os rumos do país.

 

 

Sobre o Encontro do Campo Unitário

 

 

O Encontro do Campo Unitário – “Propostas para alimentar e defender o Brasil e o povo brasileiro no campo, nas florestas e nas águas” começou na quinta-feira, 3 de setembro, em Salvador, na Bahia, e segue até sábado, 5 de setembro. A atividade busca construir uma leitura comum da conjuntura brasileira e internacional e elaborar uma plataforma política dos povos do campo, das florestas e das águas.

 

O encontro reúne mais de 60 organizações. Entre elas estão a Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (CONTAG), o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), a Via Campesina Brasil, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), a Pastoral da Juventude Rural (PJR) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).