Movimento de Mulheres Camponesas celebra, em 1º de maio, uma trajetória de mais de quatro décadas marcadas por organização, formação e luta
Vanessa Lazzaretti
02 de maio de 2026
No dia 1º de maio de 2026, enquanto a classe trabalhadora em todo o mundo relembrou suas lutas e reafirmou seus direitos, as mulheres camponesas brasileiras celebraram essa mesma história a partir de suas próprias raízes, memórias e formas de resistência. Trabalhadoras da terra, das águas, das florestas, elas são parte fundamental da classe trabalhadora que produz a vida, o alimento e a riqueza do país.
Há 43 anos, uma semente de organização foi lançada no encontro de mulheres realizado em 1º de maio de 1983, em Itaberaba, distrito de Chapecó, em Santa Catarina. Naquele dia, 28 camponesas de seis comunidades se reuniram para falar sobre suas vidas, suas dores, seus direitos e seus sonhos.
Naquele tempo, muitas vozes ainda eram silenciadas dentro de casa, nas comunidades, nos sindicatos e nos espaços de decisão. Mas aquelas mulheres decidiram se reunir. Decidiram transformar inquietação em palavra; palavra em organização; e organização em luta coletiva. Daquela semente plantada com coragem e necessidade histórica, germinou uma das mais importantes organizações feministas camponesas do Brasil: o Movimento de Mulheres Camponesas.
Quatro décadas depois, o MMC chega aos 43 anos como expressão viva das mulheres que plantam, cuidam, alimentam, resistem e fazem política. Agricultoras, pescadoras artesanais, quebradeiras de coco, extrativistas, ribeirinhas, marisqueiras, posseiras, boias-frias, diaristas, sem-terra, acampadas, assentadas, faxinalenses, indígenas, quilombolas, mulheres do campo, das águas, das florestas e também das periferias urbanas carregam, em comum, uma identidade forjada na luta por dignidade, direitos, autonomia e transformação social.
Para Adriana Mezadri, da Coordenação Nacional do MMC, essa história não pode ser contada apenas como uma linha do tempo. Ela precisa ser narrada como uma caminhada coletiva, feita de memória, coragem e organização. “Quando celebramos os 43 anos do MMC, não celebramos apenas uma data. Celebramos a coragem das mulheres que romperam o silêncio, que saíram de casa, que enfrentaram o machismo, a violência e a invisibilidade para dizer que nós também somos sujeitas da história. O MMC nasce dessa necessidade profunda de organização das mulheres camponesas e segue vivo porque a luta pela libertação das mulheres continua cada dia mais necessária”, destaca a dirigente.
Os caminhos do MMC na construção do Feminismo Camponês Popular
A história do MMC começa antes de seu nome atual. No final dos anos 1970 e início dos anos 1980, em diferentes regiões do país, mulheres trabalhadoras rurais passaram a construir espaços próprios de organização. Suas lutas se articulavam ao processo de redemocratização do Brasil e às reivindicações por terra, sindicalização, previdência, saúde pública, documentação e reconhecimento da profissão de trabalhadora rural.
Ao mesmo tempo, essas mulheres percebiam que, nos espaços mistos, suas pautas eram frequentemente tratadas como secundárias. A necessidade de autonomia política e organizativa tornou-se, assim, uma das sementes centrais do movimento.
Em 1995, a criação da Articulação Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, a ANMTR, reuniu movimentos autônomos de mulheres, bem como, as organizadas em movimentos mistos do campo. Esse processo consolidou uma compreensão decisiva: a luta das camponesas não poderia separar gênero e classe, nem deixar de enfrentar o modelo agrícola dominante, a concentração da terra, a violência patriarcal e a destruição da natureza.
Essa caminhada ganhou um marco importante no I Congresso Nacional, realizado em 2004, quando os movimentos estaduais autônomos de mulheres do campo se unificaram e deram origem ao Movimento de Mulheres Camponesas. Foi também nesse momento que o MMC assumiu publicamente sua identidade feminista e seu horizonte socialista, compreendendo que a luta das camponesas fazia parte de uma luta mais ampla pela libertação das mulheres e pela transformação da sociedade.
Assumir-se feminista, portanto, não significava apenas adotar uma palavra. Significava dar nome a uma luta que as mulheres camponesas já vinham travando há muito tempo: contra o machismo, a violência, a desigualdade no acesso à terra e à renda, pelo reconhecimento e valorização de seus trabalhos e à participação política.
Desde então, o MMC vem construindo o Feminismo Camponês Popular, enraizado na experiência concreta das mulheres camponesas organizadas. Como destaca Mezadri, “o Feminismo Camponês Popular não nasce como uma teoria pronta, importada de fora da vida concreta das comunidades. Ele se constrói no trabalho de base, nas formações, nas marchas, nas assembleias, nos congressos, nos quintais produtivos, no cuidado com as sementes crioulas, nas plantas medicinais, na defesa da agroecologia e da soberania alimentar. É um feminismo que parte da vida cotidiana, que transforma experiência em organização e luta por direitos”.
Essa construção também se fortalece em diálogo com as lutas internacionalistas e antiimperialistas das mulheres camponesas da América Latina e do Caribe, especialmente nos espaços da Coordenadoria Latino-americana de Organizações do Campo (CLOC) e da Via Campesina. Nesses processos de articulação continental e mundial, as mulheres camponesas compartilham diagnósticos, experiências e estratégias comuns diante do avanço do agronegócio, das empresas transnacionais, da mercantilização da natureza, da violência patriarcal e das diferentes formas de dominação imperialista sobre os povos e territórios.
É nesse encontro entre a experiência concreta das mulheres camponesas organizadas em seus territórios e a articulação política construída em escala latino-americana, caribenha e mundial que o Feminismo Camponês Popular se fortalece. Ao dar nome e horizonte às lutas históricas das mulheres do campo, das águas e das florestas, esse feminismo afirma que a libertação das mulheres exige enfrentar, de forma articulada, o capitalismo, o patriarcado, o racismo, a LGBTfobia, a concentração da terra, a violência contra os povos e a destruição da natureza.
Ao defender a autonomia das mulheres, a produção de alimentos saudáveis, a permanência nos territórios, o cuidado com a natureza e a construção de novas relações sociais, o MMC afirma um feminismo enraizado na vida camponesa, popular, classista, antirracista, antipatriarcal e anticapitalista. Um feminismo que segue em construção, como semente que germina na luta e floresce na defesa da vida.
Contra as opressões, a força coletiva das mulheres camponesas
A história do MMC é também a história de mulheres que decidiram nomear as violências que atravessavam suas vidas. No primeiro encontro, em 1983, os relatos já apontavam a marginalização das mulheres na família, na comunidade, no sindicato e na sociedade. Eram experiências marcadas pela falta de reconhecimento do trabalho, pela exclusão da herança, pela ausência de direitos previdenciários, pela pouca participação política e pela submissão às decisões masculinas.
Essas violências não eram — e não são — fatos isolados. Elas fazem parte de uma estrutura social que combina patriarcado, capitalismo, racismo, concentração fundiária e exploração do trabalho. No campo, essa estrutura se expressa no não reconhecimento do trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres, na divisão sexual do trabalho, na dificuldade de acesso à terra, ao crédito, à assistência técnica, à renda, à saúde e aos espaços de decisão.
Também aparece na violência doméstica, na violência política, na violência institucional e na violência contra os territórios. Por isso, enfrentar a violência contra as mulheres camponesas exige olhar para as relações sociais que sustentam a desigualdade e para o modelo de desenvolvimento que ameaça a vida no campo.
O MMC se constituiu justamente como resposta coletiva a essa realidade. Ao organizar mulheres em grupos de base, encontros, formações, mobilizações e campanhas, o movimento transformou experiências antes vividas como dor individual em consciência coletiva e ação política. “O MMC ensina que a violência contra as mulheres não é um problema privado. Ela tem raízes numa sociedade que explora o trabalho, concentra a terra, destrói a natureza e tenta controlar nossos corpos. Quando uma mulher se organiza, ela começa a compreender que a dor que parecia só dela é parte de uma estrutura. E, quando essa compreensão vira luta coletiva, nasce a possibilidade de transformar a vida”, salienta Mezadri.
Ao longo de sua trajetória, o MMC conquistou direitos, ajudou a colocar as mulheres camponesas no centro do debate público e mostrou que sua contribuição vai além da reivindicação de políticas públicas. A luta pela seguridade social, pelo salário-maternidade, pelo SUS, pela assistência social e pela valorização da agricultura camponesa familiar se soma, no cotidiano, à construção de novas relações sociais.
Essa construção aparece na defesa da agroecologia como modo de vida, ciência e projeto de sociedade; no cuidado com as sementes crioulas, a água, a terra e a biodiversidade; na preservação dos saberes tradicionais; na valorização dos quintais produtivos; na solidariedade entre mulheres; e na afirmação de que a vida precisa estar acima do lucro.
Em tempos de emergência climática, avanço do agronegócio, contaminação por agrotóxicos, aumento de casos de feminicídios, de conflitos armados no mundo e ataques aos territórios tradicionais, a existência do MMC reafirma que as mulheres camponesas são sujeitas políticas que produzem alimentos saudáveis e diversificados, conhecimento, resistência e alternativas.
Os desafios atuais a partir da Carta Final do II Congresso Nacional do MMC
A Carta Final do II Congresso Nacional do MMC, aprovada em outubro de 2025, expressa uma síntese dos desafios do presente e aponta caminhos para o futuro. O documento reafirma o compromisso do movimento com o Feminismo Camponês Popular, com o projeto de agricultura camponesa agroecológica, com o fim de todas as formas de violência, com a ampliação dos direitos sociais, com a economia feminista, camponesa e popular, com a permanência das juventudes no campo, com o enfrentamento ao racismo e à LGBTfobia, com a defesa dos territórios e com o reconhecimento dos cuidados populares em saúde.
Entre os desafios centrais está o fortalecimento das políticas públicas para as mulheres camponesas. A Carta reivindica assistência técnica e extensão rural pública, gratuita, agroecológica e feminista; crédito agrícola subsidiado para fortalecer quintais produtivos e a produção agroecológica; acesso à saúde e à seguridade social; reconhecimento do cuidado como trabalho essencial à vida; e políticas que garantam a permanência digna das juventudes no campo.
Outro desafio é enfrentar a violência em suas múltiplas dimensões. Para o MMC, isso significa combater a violência doméstica e de gênero, mas também denunciar as violências produzidas pelo racismo, pela LGBTfobia, pela concentração da terra, pelos conflitos territoriais, pela contaminação dos alimentos e pela destruição ambiental.
A Carta afirma a luta contra o patriarcado, o capitalismo, o racismo, a LGBTfobia e todas as formas de opressão, exploração, discriminação, preconceito e violência. Como pontua Mezadri, “os desafios de hoje exigem que o MMC siga fortalecendo sua base, sua formação e sua capacidade de luta. Precisamos enfrentar a violência contra as mulheres, defender os territórios, produzir comida saudável, disputar políticas públicas e garantir que as jovens camponesas possam permanecer no campo com dignidade”.
A Carta também aponta para a centralidade da infância e da juventude camponesa. Durante o II Congresso Nacional, foi realizado o I Congresso da Infância Camponesa, expressão do protagonismo de crianças e adolescentes e da defesa do direito a uma infância feliz, saudável e protegida nos campos, nas águas e nas florestas.
Esse elemento amplia o horizonte da luta. Defender as mulheres camponesas é também defender as crianças, as juventudes, os territórios, os modos de vida e a possibilidade de futuro. É afirmar que a permanência no campo não pode ser sinônimo de abandono, precariedade ou ausência de direitos. Precisa ser uma escolha possível, com terra, renda, educação, saúde, cultura, internet, lazer, políticas públicas e reconhecimento. “Nós existimos porque lutamos. E lutamos porque acreditamos que é possível construir outro jeito de viver, produzir e se relacionar. O MMC é feito pelas mulheres que vieram antes de nós, pelas que seguem em marcha hoje e pelas meninas que já aprendem, desde pequenas, que a terra, a vida e a liberdade precisam ser cuidadas coletivamente”, destaca Mezadri.
No dia 1º de maio, celebrar os 43 anos do Movimento de Mulheres Camponesas é celebrar uma história que nasceu da coragem de mulheres que se recusaram a permanecer invisíveis. É reconhecer que, das comunidades aos congressos nacionais, dos quintais produtivos às marchas em Brasília, das sementes crioulas às cartas políticas, o MMC segue cultivando uma certeza: quando as mulheres camponesas se organizam, a luta floresce, a memória se fortalece e o futuro ganha raízes.








